Maurício de Sousa e o mapa do sucesso
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Uma road-trip caipira nos anos 90
Por Márcio Leite, 15 de Junho de 2026

O Facebook ontem me lembrou que em Junho de 1996 eu tinha 18 anos e cursava o segundo ano de Desenho Industrial na FATEA, em Lorena - uma pequena cidade do Vale do Paraíba espremida entre as montanhas e a Via Dutra.
Como acontece com muitos estudantes dessa idade, eu vivia naquele curioso intervalo entre a adolescência e a vida adulta: já me sentia independente o suficiente para opinar e criticar sobre tudo, e ainda dependia dos outros para um quase nada.
Foi nessa época que conheci melhor Cristiana Fernandes, a Kitty. Hoje professora doutora em design.
Mas na época, Kitty era minha veterana na faculdade e possuía uma característica rara: parecia estar sempre em movimento. Enquanto a maioria de nós ainda tentava entender as diferenças entre Bauhaus, pós-modernismo, “arcos orgivais” e a data da próxima entrega de projeto, ela já transitava por centros acadêmicos, encontros estudantis, congressos de design e eventos culturais espalhados pelo país. Era daquelas pessoas que sabem o nome de todo mundo, conhecia histórias que ninguém mais conhecia e parecia ter acesso a uma espécie de rede secreta de pessoas bacanas e de informações raras numa época em que a internet ainda não fazia parte da vida dos estudantes.
Ela já me lembrava uma versão rock-and-roll da Mônica, do Mauricio de Sousa. Corajosa, determinada, levemente mandona e brigona (quando necessário) e completamente incapaz de ficar parada em silêncio.
Eu era seu oposto complementar.
Mais tímido, observador e silencioso. Gostava de moda, música eletrônica, revistas de comportamento e das raras ocasiões em que conseguia escapar para São Paulo. Essas viagens ocasionais acabaram produzindo um efeito colateral inesperado - em algum momento, as pessoas passaram a acreditar que eu conhecia muito bem a capital paulista.
Hoje percebo que existe uma diferença enorme entre ter visitado São Paulo escoltado por adultos e realmente conhecer São Paulo. Na época, porém, eu também não sabia disso.
Quando Kitty me perguntou se eu conhecia a cidade, respondi imediatamente que sim. Tecnicamente eu não estava mentindo. Já tinha ido algumas vezes. O detalhe que omiti foi que todas essas visitas haviam acontecido sob a supervisão de parentes, pai de um amigo de infância, da avó ou da prima de uma antiga namoradinha da oitava série. Minha experiência prática de navegação urbana era próxima de zero e ainda seria capaz de fazer sinal pro maquinista do metrô parar.
Mas a breve resposta pareceu satisfazê-la.
Ela estava desenvolvendo sua monografia sobre a obra de Mauricio de Sousa e havia conseguido agendar por telefone uma visita ao antigo estúdio da MSP, na Lapa. Queria fazer entrevistas, consultar materiais na gibiteca e observar os processos de produção dos quadrinhos. O convite para acompanhá-la me pareceu uma oportunidade extraordinária para minha futura carreira como designer gráfico. Topei e durante semanas economizei cada centavo possível para custear a viagem.
No dia marcado, acordamos ainda de madrugada na república onde ela morava. Vestimos nosso uniforme não oficial de estudantes de design dos anos 90: jeans, jaquetas perfecto de couro preto, botas e mochilas Company. Embarcamos na Pássaro Marrom carregando a convicção típica da juventude de que tudo daria certo, embora nenhum dos dois soubesse exatamente como.
A reviravolta da viagem aconteceu 20 minuto depois que partimos, logo na primeira parada, em Guaratinguetá.
Foi quando Kitty abriu sua mochila. De dentro dela começaram a surgir objetos que ela carregava - tecnologia suficiente para lançar um satélite pro espaço: um notepad eletrônico, um bip de mensagens, um “tijorola” StarTAC, um mini-gravador K-7 para entrevistas, uma câmera fotográfica analógica, agenda, caderno e um arsenal de canetas cuidadosamente organizadas. Por fim, surgiu o item mais importante de todos: um Guia A–Z da cidade de São Paulo.
O volume foi aberto sobre suas pernas com a solenidade de quem consulta um mapa náutico antes de atravessar o Atlântico. Após localizar o endereço dos estúdios, ela me entregou o guia para que eu indicasse o caminho.
Foi nesse momento que DUAS verdades desconfortáveis vieram à tona: eu não sabia usar o A-Z e nem fazia a menor ideia de como chegar lá.
A expressão de Kitty mudou instantaneamente. Durante semanas ela havia acreditado que EU seria nosso especialista em São Paulo. O problema é que, durante essas mesmas semanas, eu havia assumido que ELA era a especialista “adulta” da viagem.
Como naquele quadro dominical do Silvio Santos na TV, nenhum dos dois caipiras sabiam andar pela cidade grande.
O mais curioso é que essa descoberta não diminuiu nossa confiança. Apenas a substituiu por improvisação.
Seguimos viagem elaborando estratégias cada vez mais duvidosas para chegar ao destino enquanto admirávamos como Bibo, nosso amigo adulto-pai-de-dois-filhos, já havia morado e conhecia cada canto da cidade como a palma da mão, escorregando pelas ruas e avenidas como um skatista.
Ao desembarcar no Terminal Rodoviário do Tietê, procuramos imediatamente um balcão de informações. A atendente simpática analisou o endereço e explicou, com a tranquilidade de quem descreve uma caminhada até a esquina, que a maneira mais simples seria utilizar o metrô até a Luz e fazer uma baldeação pra um trem da CPTM até a Lapa.
A reação de Kitty foi desproporcional ao perigo apresentado. Ela encarou a palavra “metrô” como quem recebe o mapa do inferno de Dante Alighieri.
Sua teoria era que entrar no sistema metroviário inevitavelmente nos levaria a errar uma estação, perder uma conexão, surgir em algum bairro desconhecido e jamais encontrar o caminho de volta, sermos assaltados e passar o resto da vida como indigentes anônimos em São Paulo.
Eu que havia andado de metrô aproximadamente duas vezes na vida (ida e volta), tentava argumentar em favor da proposta. Curiosamente, minha experiência limitada me transformava no membro mais qualificado daquela expedição.
Após longas deliberações, optamos pela alternativa considerada mais segura: ônibus, trem, caminhada e sorte.
A sorte, felizmente, colaborou.
Descemos do onibus próximo à Estação da Luz, atravessamos uma rua abandonada da cidade que nos pareceu perigosíssima, com vários moradores de rua enrolados em seus cobertores cinza (embora provavelmente fossem apenas cenas normais para os padrões paulistanos) lá embarcamos então num trem da CPTM, que nos levou até a Lapa e lá, como escoteiros numa trilha, atravessamos uma passarela de ferro sobre os trilhos e caminhamos pelas ruas da Lapa sob uma garoa fina e persistente.
Lembro da sensação de vitória ao avistar o número 745 da Rua do Curtume.

Após nos identificarmos na recepção, fomos recebidos por Alice T.K.B. Lacerda, uma mulher de sorriso acolhedor que nos conduziu pelos bastidores de um universo que, até então, existia apenas nas páginas dos gibis. Pela primeira vez vimos como aquelas histórias eram produzidas.
As pranchetas de madeira alinhadas em fileiras, os roteiros, os esboços, os desenhistas, os arte-finalistas trabalhando com nanquim, os letristas desenhando manualmente cada balão de fala. Havia algo quase artesanal em todo o processo. Um sistema complexo funcionando graças à combinação de talento, disciplina e repetição. Ela própria, Alice, havia começado nos estúdios como letrista, cobrindo com nanquin os textos marcados em esboço com lapís azul claro, invisível para a copiadora Xerox.
Como estudantes de design, nossa curiosidade naturalmente nos levou a perguntar onde ficava o departamento de design.
A resposta foi surpreendentemente frustrante. Existia apenas um designer no departamento de merchandising.
Enquanto dezenas de artistas desenhavam personagens e histórias, cabia a ele desenvolver as embalagens de alimentos, de brinquedos, capas de especiais e outras aplicações gráficas. Foi ali que vimos algumas das primeiras experiências digitais do estúdio, realizadas em versões iniciais do Photoshop, onde degradês, sombras e efeitos de profundidade começavam a transformar visualmente as capas dos quadrinhos. O que hoje parece arcaico, para dois estudantes fascinados, aquilo era tecnologia do futuro.
Após a visita fomos conduzidos à gibiteca, onde consultaríamos materiais para a pesquisa da Kitty. Sentamos em silêncio entre pilhas de revistas, documentos acadêmicos e referências históricas. O cansaço da viagem começava a aparecer, assim como a fome.

Eu examinava distraidamente o gravador quando percebi alguém entrando pela porta a minha frente. Foi uma daquelas situações em que o cérebro reconhece uma pessoa antes mesmo de formular conscientemente quem ela é. Kitty de costas pra porta não ouviu o que o gravador gravou: “ aguenta coração”, eu disse.
Era Mauricio de Sousa, o próprio.
Por uma coincidência improvável, ele estava no estúdio naquele dia e horário.
Aproximou-se de nós com naturalidade, como se fosse perfeitamente normal interromper a tarde de dois estudantes do interior paulista prestes a sofrer uma sobrecarga emocional.
Kitty tentou explicar sua pesquisa.
Falou sobre semiótica, narrativa visual, cores, balões, onomatopeias e estruturas gráficas e do disco vermelho de vinil que tinha ganhado da mãe quando criança. Quanto mais tentava explicar, mais emocionada ficava. Em poucos segundos estava com as bochechas vermelhas chorando diante do homem cuja obra ela havia acompanhado durante toda a vida até ali.
Mauricio reagiu com uma simplicidade desarmante.
-Abraçou-a.
-Conversou conosco.
-Contou histórias suas.
-Falou sobre aprender fazendo.
-Sobre errar.
-Sobre descobrir soluções durante o caminho.
-E humildemente expressou a responsabilidade sobre seu trabalho de vida, ao saber estar sendo tão cuidadosamente analisado.
Lições que, olhando para trás, serviam tanto para produzir quadrinhos quanto para atravessar São Paulo sem saber onde ficava a Rua do Curtume, e ainda hoje, para entender como construir um trabalho com tamanha significancia e impacto para as pessoas.
Consegui registrar uma fotografia dos dois juntos, embora tenha passado o restante do dia preocupado com a possibilidade de o filme não revelar e Kitty querer me matar com coelhadas.
Na volta, uma recepcionista nos ensinou um trajeto absurdamente simples para retornar à rodoviária. Descobrimos que toda a nossa epopeia matinal poderia ter sido resolvida com um único ônibus.
Antes de embarcar para a rodoviária, paramos numa padaria e comemos um bauru exageradamente recheado de queijo, acompanhado por uma Coca-Cola.
Até hoje me lembro daquele lanche.
Talvez porque algumas refeições tenham gosto de conquista. Ou talvez porque aquele dia tenha me ensinado uma lição que continua válida trinta anos depois.
A maioria das pessoas que admiramos não sabem exatamente o que estão fazendo.
Os estudantes não sabem - pois estão experimentando
Os profissionais não sabem - pois estão experimentando.
Os mestres também não - pois estão experimentando.
Estão todos experimentando, desbravando e descobrindo.
A diferença é que alguns já fizeram o caminho algumas vezes, outros carregam um mapa, outros carregam coragem, e os mais sortudos carregam em sua companhia pessoas parceiras, teimosas e sabichonas, como a Kitty, que nos dão confiança.
E, de algum modo misterioso, todos acabam chegando aos seus destinos, com sucesso.



